D.H., 32 anos, altura mediana, entrou na larga porta do Fórum naquele rigoroso inverno de 86. Lembro bem do seu sobretudo cor areia e sua boina clara. Típico de um réu que nada teme. Sentou-se e encarou cada ser que lhe prestigiava, na sua glória, na sua morte. Esperou que as testemunhas de acusação entrassem e se colocassem em seus determinados lugares. Encarou cada uma delas de maneira tímida e sugestiva, como se esperasse que seus olhos encontrassem olhos que ele já havia procurado. Encontraram-se como, algumas vezes, em longos 5 anos de quase-existência. Engoliram a saliva que torceu a garganta. Inspiraram. Transpiraram. Ar quente, mãos geladas.
Para a sua surpresa, é ela quem incia a acusação. A primeira frase dita lhe acusava de ser um desvio da normalidade padrão do ser humano. Não é próprio da fisiologia humana respirar oxigênio e liberar maços de felicidade colorida às pessoas que lhe cercam. Não é próprio do instinto humano conseguir arrancar com as mãos alguns centímetros de racionalidade. Não é justo deixar sem nada, apenas com o sentimentalismo exarcebado.
Não foi preciso que terminasse a pronúncia, D.H., 32 anos, altura mediana, pediu licença às autoridades, entregou rosas à testemunha de acusação e saiu pela larga porta na qual entrara. Passos lentos que não foram interrompidos. Justiça justa que sempre foi injusta.
Não tenho o direito de condená-lo mas, se assim pudesse, lhe sentenciaria com a eternidade... dividida com uma chanceira garota.