Thursday, January 31, 2008

Eu me afogo na lama e cuspo vespas cintilantes quando meus olhos a contemplam. Aquela obscenidade prateada é uma loucura estonteante. Ousadia aparecer nas trevas e sobrepor seu brilho. Tão ousada que me engole inteira com seu véu de núpcias. Lua, horror, liberdade, medo, loucura, satisfação. Tão nua e envergonhada que por vezes passa a se esconder por detrás do negro céu. Se esconde como um artista de talento e simplicidade se esconde da fama. É um canto de coro que me chama. São vozes oblíquas exturgantes, passivas.



Vácuo imundo.




Feitiços em forma de versos.

Luzes que não apagam.

Estrelas e sonhos dispersos.

Pobres sentinelas que vagam.

Tuesday, January 22, 2008

Sentenciando...

D.H., 32 anos, altura mediana, entrou na larga porta do Fórum naquele rigoroso inverno de 86. Lembro bem do seu sobretudo cor areia e sua boina clara. Típico de um réu que nada teme. Sentou-se e encarou cada ser que lhe prestigiava, na sua glória, na sua morte. Esperou que as testemunhas de acusação entrassem e se colocassem em seus determinados lugares. Encarou cada uma delas de maneira tímida e sugestiva, como se esperasse que seus olhos encontrassem olhos que ele já havia procurado. Encontraram-se como, algumas vezes, em longos 5 anos de quase-existência. Engoliram a saliva que torceu a garganta. Inspiraram. Transpiraram. Ar quente, mãos geladas.
Para a sua surpresa, é ela quem incia a acusação. A primeira frase dita lhe acusava de ser um desvio da normalidade padrão do ser humano. Não é próprio da fisiologia humana respirar oxigênio e liberar maços de felicidade colorida às pessoas que lhe cercam. Não é próprio do instinto humano conseguir arrancar com as mãos alguns centímetros de racionalidade. Não é justo deixar sem nada, apenas com o sentimentalismo exarcebado.
Não foi preciso que terminasse a pronúncia, D.H., 32 anos, altura mediana, pediu licença às autoridades, entregou rosas à testemunha de acusação e saiu pela larga porta na qual entrara. Passos lentos que não foram interrompidos. Justiça justa que sempre foi injusta.

Não tenho o direito de condená-lo mas, se assim pudesse, lhe sentenciaria com a eternidade... dividida com uma chanceira garota.

Thursday, January 3, 2008

A VIÚVA NEGRA E O ALFABETO

A viúva negra abocanhou o que fora meu doce favorito. A viúva negra sorria enquanto eu chorava lágrimas de nuvens escuras, pingos grossos e azedos, tal qual o gosto de vinagre que senti na salada de um dia da semana passada. A viúva negra não é uma sombra, nem um fantasma, nem uma bruxa provinda da imaginação fértil. Ela é uma idosa encarnada no corpo de uma jovem de cabelos longos, loiros e ondulados. O nome dela começa com a letra M. A letra M vem depois do L. Meu nome começa com a letra L. Perturbadoramente estranho pensar em "ordem", mais ainda se elas vêm de algo adotado como lei para desenvolvimento de uma cultura, uma base de comunicação, evolução da espécie. O M fica com o resto deixado pelo L, que fica com os restos deixados pelas 11 letras que, pela ordem alfabética, vêm antes dele. Por isso eu ainda prefiro a letra D (que vem bem antes do L) e, nesse caso, não faz a mínima diferença o que a letra C lhe deixa, afinal, o C é a letra que te dá o excremento, a parte que o corpo humano não aceita mais. Não é regra geral, e nem uma parte significante. Eu apenas preciso dizer que a letra D tem uma importância maior, embora o nome artístico de um carinha fera em dar insônia aos leitores tenha dois jotas batutas, meu caro James.