Friday, February 22, 2008

A ÚLTIMA DUCHA

Ligara o chuveiro e a água cortou-lhe o respirar. Era tão gelado e insuportável o que sentira que chegou a pensar ter morrido. Antes tivera. Prenderam-se as palavras, executaram-se romances e castraram-se os sonetos. A boneca de pano foi alfinetada pela costureira absorta em soluços de silêncio. Um tijolo torto; a construção desaba. E nem mesmo a linha desenhada adiantaria quando a mão já se acostumara a escrever de maneira torta. Desenho sem margem, pintura sem tinta. Foi por acaso, ela vira.
O acaso não existe e quiseram que ela visse.
Antes tivesse morrido.
Sua pele adormecera com o gelo tocante. Não fazia sentido pensar que perderam-se as oportunidades. Nunca há como aceitar todas as instâncias. Não há arrependimento, não há resolução. Há apenas a pior parte da vida: a reflexão do que podia ter sido e não foi.
E a melhor parte da vida acontece pelas tantas outras oportunidades, acertadas e amáveis.
A mão trêmula e completamente ressecada fechara o registro. Nenhuma gota a mais caíra após o movimento. Nenhuma ação e nenhum suspiro. Somente um deslize suave bastou para a ducha ser a última coisa feita em vida.


Era uma caixa de mistérios para o mundo e um livro compartilhado só comigo. Tanto um como o outro me chamavam a atenção. Optei pelo segundo e hoje ele é a ducha da minha alma.