Friday, August 8, 2008

UMA RAZÃO NÃO JUSTIFICADA

Embora minha sensibilidade seja em um nível bem relevante eu preciso de razões, não de justificativas, mas razões. Sim, porque razões podem justificar ou não alguma coisa. Por exemplo, há semanas atrás eu disse ao meu namorado que quando eu tenho tempo (tempo mesmo, tempo para ler e-mails, fuçar a vida dos cidadãos alheios através do orkut - sim, porque viver socialmente é estar informado - ou, simplesmente, ficar sentada na frente do computador) eu escrevo (lê-se: atualizo o blog). Dei uma razão, portanto, a ausência de postagens.
A minha opinião (in)formada sobre a falta de atualização do blog desviou-se da razão fornecida anteriormente e passou a ter, agora, uma justificativa. Aconteceu que hoje participei de uma Oficina de Crônicas (ótima, diga-se de passagem, com uma pessoa amável) que, além de todo o conhecimento, me trouxe uma reflexão sobre os processos de desenvolvimento de quaisquer atividades mas, principalmente, as que estão ligadas ao conhecimento ou aos sentidos artísticos. É uma questão de inserção, de exposição às situações, de partilhas, de doces, de conversas porque, embora minha intransigência persista, eu estava há um bom tempo sem atualizar meu blog. Perfeccionismos também ficam em off algumas vezes... sem ironia!
Bastou algumas horas discutindo sobre a escrita de crônicas e ao chegar em casa vim direto ao computador. Tudo bem, a oficina encerrou-se às cinco horas mas domingo é dia dos pais e o comércio precisou da minha contribuição, portanto, vim, sim direto ao computador. Lembrei das aulas da faculdade em que discutíamos sobre a educação, principalmente na parte mais restrita do estágio, queríamos reestruturar o sistema educacional.
Assim aconteceu novamente... hoje eu quis escrever, depois do alimento que tive, depois de tantos textos maravilhosos. É uma euforia, são mãos trêmulas e ágeis sobre o teclado, que não justificam a vontade de escrever. Mas a razão maior de tudo isso seria a quanti... bem, acho que isso seria mais uma justificativa.
Mas, então, Titãs e o acaso são meras musicalidades? O fato de eu querer dar razões a alguma coisa tira a causalidade de situações antes imprevisíveis e talvez isso aconteça por eu tentar justificar as faltas de acasos na rotina. Porém, quando eu digo "talvez isso aconteça por (...)" é mais uma forma de... qual é mesmo a diferença entre dar razões e justificar algum fato?

Wednesday, July 2, 2008

Infantilidades e desejos heterogêneos...


Na minha infância eu sempre quis ser artista.

Na minha mente as minhas bonecas cantavam, pintavam, escreviam e dançavam. Todas elas tinham a arte no corpo e na alma.

Nunca fui como as bonecas que imaginei, minha voz me engavana, minhas mãos eram frágeis para conseguirem manter-se firmes nos contornos, a minha criatividade inventava estórias incoerentes e as minhas pernas transformavam as belas danças em movimentos desastrosos.

Na minha infância eu era o artista que não tinha o dom, que não tinha melodias de músicas, que não tinha telas para pintar, que não tinha idéias para poetizar e que não tinha compasso para a arte de dançar.

Thursday, June 19, 2008

DIÁRIO INSANO

Ela cortava a gola das camisas de tom pastel
Ele dizia que ela o levava ao céu

Ela tomava goles de chá de ovo quente
Ele era o que ela chamava: inteligente

Ela tinha cabelo oleoso e manchas imprevisíveis
Ele tinha olhos de pipoca doce e versos sensíveis

Ela escondia cartas e não se alimentava bem
Ele desprezava o jogo e contava até cem

Ela era nervosa e tinha fúria no olhar
Ele era o dono do mundo porque sabia amar

Ela era imprevisível, mórbida e tinha uma voz insuportável
Ele era a perfeição do divino, arcanjo de voz suave, adorável


Eu sou irredutível, irreal, mera devota que escreve versos ao luar
Ele é perfeito porque me tem aos risos e me acolhe ao chorar

Sunday, June 1, 2008

A NOSTALGIA, A ANSIEDADE E O AÇÚCAR MATINAL.

Acordo, deixo minha cama quente (ou aquele colchão gostoso colocado na sala em frente à TV), deixo meu café, meu pedaço de chocotone, a minha alegria que tem nome e a minha identidade, somente um codinome.

Me despeço do surrealismo que me acompanhou o sono, visto a roupa mal passada, a carapuça amarrotada e a velha sordidez há muito ocultada.

A primeira hora é ruim, a última é a pior, volto pra casa descontente, me irrito facilmente, escovo meu dente e finjo ser inteligente.

Preciso das vozes infantis, daqueles gestos gentis, das minhas candies sutis.

Friday, May 9, 2008

O Luxo e o lixo

O luxo me passou a perna e quebrou o salto do meu scαrpin. Se eu usasse scarpin diria que a sentença está correta. O fato é que não usar scarpin me torna um lixo feminino.
A altura é sempre o local menos alcançado e mais desejado, o vermelho, então, desejo em esferas transcedentais, não importa com que cores, nem se há combinação. Melhor ainda se não houver, se as unhas e os lábios não estiverem pintados de vermelho. Um beijo a menos, uma noite a mais.
O lixo é o que contraria o luxo, é onde eu me encontro seis dias da semana. E o dia restante eu diria ser ainda pior.


O luxo me diz: "Bom dia!" e já me levou às baladas e ao fumo por charme e rebeldia. O lixo me fez ser normal e perceber quantas coisas não eram o que eu considerava serem. Continuo num lixo, mas tenho um luxo, que faz com que o espelho reflita Katie Holmes e Fernanda Lima, porque o Brasil pode ser luxo. E, no mesmo ponto de vista, a luz e a escuridão são luxos.

Thursday, March 27, 2008

THE GAME

Um valete e uma dama discutiam abaixo o olhar dos jogadores.
Parecia fácil matar a jogada; esconder-se entre setes, oitos e noves
Meter-se entre as pernas e os raios de sorte.

Assistindo, o vício comia a carne mal passada
Enquanto a ironia, sentada à mesa, brindava à morte
E a ingenuidade sorria ao ganhar a jogada, em tom forte.

A angústia espremia-se e olhava assustada
Enquanto o rei soltava a coroa ao valete de espadas
Uma trinca de quatro, vermelha, sobre a mesa espalhada.

Uma carta na manga caiu na direção da esperteza
E o medo sentiu que ia perder ao ver a criatura,
a sensibilidade, suspirar altamente e cair dura.

Seis tiros brindaram os jogadores da madrugada
E nenhum sussurro saiu da mesa das sensações
Morreram sentimentos sob a lâmpada apagada
Não mais trapaças e cigarros, não mais campeões.

Friday, March 21, 2008

SEXTA-FEIRA

Um gato preto cortou meu caminho na sexta-feira santa. Percebi-lhe a vaidade no olhar...
Vi seus bigodes reluzentes e firmes, uma sacra imagem de igreja, adorada e cuspida. Tamanha frieza ofertava-me espinhos através dos finos e vomitados lábios. Um miado de cadela no cio e o arrepio percorreu-me os braços. Das suas patas reconheci o cheiro de esgoto ou leite vencido. Era um porco na sombra, uma galinha no puleiro.
Acompanhou-lhe uma sombra, espectro de diabo errante. Vi, naqueles grandes bagos de olhos, meu pavoros semblante.
De sorte que eu chorava lágrimas de sangue
Não vi o louco e bêbado esqueleto lupino
Rasgando bagas de rosário e pétalas de flores
Crânio maldito, louco e frio assassino.

Era sexta-feira santa. Ajoelhada no meu quarto eu rezava com olhos fixados na parede. Meus pés banhados, rio sangrento, santidade amaldiçoada.

Friday, February 22, 2008

A ÚLTIMA DUCHA

Ligara o chuveiro e a água cortou-lhe o respirar. Era tão gelado e insuportável o que sentira que chegou a pensar ter morrido. Antes tivera. Prenderam-se as palavras, executaram-se romances e castraram-se os sonetos. A boneca de pano foi alfinetada pela costureira absorta em soluços de silêncio. Um tijolo torto; a construção desaba. E nem mesmo a linha desenhada adiantaria quando a mão já se acostumara a escrever de maneira torta. Desenho sem margem, pintura sem tinta. Foi por acaso, ela vira.
O acaso não existe e quiseram que ela visse.
Antes tivesse morrido.
Sua pele adormecera com o gelo tocante. Não fazia sentido pensar que perderam-se as oportunidades. Nunca há como aceitar todas as instâncias. Não há arrependimento, não há resolução. Há apenas a pior parte da vida: a reflexão do que podia ter sido e não foi.
E a melhor parte da vida acontece pelas tantas outras oportunidades, acertadas e amáveis.
A mão trêmula e completamente ressecada fechara o registro. Nenhuma gota a mais caíra após o movimento. Nenhuma ação e nenhum suspiro. Somente um deslize suave bastou para a ducha ser a última coisa feita em vida.


Era uma caixa de mistérios para o mundo e um livro compartilhado só comigo. Tanto um como o outro me chamavam a atenção. Optei pelo segundo e hoje ele é a ducha da minha alma.

Thursday, January 31, 2008

Eu me afogo na lama e cuspo vespas cintilantes quando meus olhos a contemplam. Aquela obscenidade prateada é uma loucura estonteante. Ousadia aparecer nas trevas e sobrepor seu brilho. Tão ousada que me engole inteira com seu véu de núpcias. Lua, horror, liberdade, medo, loucura, satisfação. Tão nua e envergonhada que por vezes passa a se esconder por detrás do negro céu. Se esconde como um artista de talento e simplicidade se esconde da fama. É um canto de coro que me chama. São vozes oblíquas exturgantes, passivas.



Vácuo imundo.




Feitiços em forma de versos.

Luzes que não apagam.

Estrelas e sonhos dispersos.

Pobres sentinelas que vagam.

Tuesday, January 22, 2008

Sentenciando...

D.H., 32 anos, altura mediana, entrou na larga porta do Fórum naquele rigoroso inverno de 86. Lembro bem do seu sobretudo cor areia e sua boina clara. Típico de um réu que nada teme. Sentou-se e encarou cada ser que lhe prestigiava, na sua glória, na sua morte. Esperou que as testemunhas de acusação entrassem e se colocassem em seus determinados lugares. Encarou cada uma delas de maneira tímida e sugestiva, como se esperasse que seus olhos encontrassem olhos que ele já havia procurado. Encontraram-se como, algumas vezes, em longos 5 anos de quase-existência. Engoliram a saliva que torceu a garganta. Inspiraram. Transpiraram. Ar quente, mãos geladas.
Para a sua surpresa, é ela quem incia a acusação. A primeira frase dita lhe acusava de ser um desvio da normalidade padrão do ser humano. Não é próprio da fisiologia humana respirar oxigênio e liberar maços de felicidade colorida às pessoas que lhe cercam. Não é próprio do instinto humano conseguir arrancar com as mãos alguns centímetros de racionalidade. Não é justo deixar sem nada, apenas com o sentimentalismo exarcebado.
Não foi preciso que terminasse a pronúncia, D.H., 32 anos, altura mediana, pediu licença às autoridades, entregou rosas à testemunha de acusação e saiu pela larga porta na qual entrara. Passos lentos que não foram interrompidos. Justiça justa que sempre foi injusta.

Não tenho o direito de condená-lo mas, se assim pudesse, lhe sentenciaria com a eternidade... dividida com uma chanceira garota.

Thursday, January 3, 2008

A VIÚVA NEGRA E O ALFABETO

A viúva negra abocanhou o que fora meu doce favorito. A viúva negra sorria enquanto eu chorava lágrimas de nuvens escuras, pingos grossos e azedos, tal qual o gosto de vinagre que senti na salada de um dia da semana passada. A viúva negra não é uma sombra, nem um fantasma, nem uma bruxa provinda da imaginação fértil. Ela é uma idosa encarnada no corpo de uma jovem de cabelos longos, loiros e ondulados. O nome dela começa com a letra M. A letra M vem depois do L. Meu nome começa com a letra L. Perturbadoramente estranho pensar em "ordem", mais ainda se elas vêm de algo adotado como lei para desenvolvimento de uma cultura, uma base de comunicação, evolução da espécie. O M fica com o resto deixado pelo L, que fica com os restos deixados pelas 11 letras que, pela ordem alfabética, vêm antes dele. Por isso eu ainda prefiro a letra D (que vem bem antes do L) e, nesse caso, não faz a mínima diferença o que a letra C lhe deixa, afinal, o C é a letra que te dá o excremento, a parte que o corpo humano não aceita mais. Não é regra geral, e nem uma parte significante. Eu apenas preciso dizer que a letra D tem uma importância maior, embora o nome artístico de um carinha fera em dar insônia aos leitores tenha dois jotas batutas, meu caro James.