Um gato preto cortou meu caminho na sexta-feira santa. Percebi-lhe a vaidade no olhar...
Vi seus bigodes reluzentes e firmes, uma sacra imagem de igreja, adorada e cuspida. Tamanha frieza ofertava-me espinhos através dos finos e vomitados lábios. Um miado de cadela no cio e o arrepio percorreu-me os braços. Das suas patas reconheci o cheiro de esgoto ou leite vencido. Era um porco na sombra, uma galinha no puleiro.
Acompanhou-lhe uma sombra, espectro de diabo errante. Vi, naqueles grandes bagos de olhos, meu pavoros semblante.
De sorte que eu chorava lágrimas de sangue
Não vi o louco e bêbado esqueleto lupino
Rasgando bagas de rosário e pétalas de flores
Crânio maldito, louco e frio assassino.
Era sexta-feira santa. Ajoelhada no meu quarto eu rezava com olhos fixados na parede. Meus pés banhados, rio sangrento, santidade amaldiçoada.
Friday, March 21, 2008
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2 comments:
medo!
Dentre teus versos encontro a complexidade voraz de Edgar A. Poe e a obscuridade funesta de Augusto dos Anjos...Versos fortes, com toques refinados de ironia, uma criatividade além dos limites da minha própria imaginação..
Busco envão palavras pra descrever-te, pois não existe vocábulo mundano para igualar-se a tamanha poética e inteligência...
Amo-te!!
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