A COROA DE ORQUÍDEAS (Nelson Rodrigues)
JUVENTINO (numa excitação de possesso): Nunca houve marido tão feliz como eu! Duvido! (confidenciando a um dos presentes no velório) Era tão séria que namorou um ano comigo, noivou dois e só topou beijo na boca depois do casamento! Quer dizer, mulher batata! Teve pudor de mim até o último momento. Nunca tomou injeção que não fosse no braço! Isso que era mulher no duro, cem por cento! O resto é conversa fiada! (atendendo o telefone) Alô!
CUNHADO: Juventino, estou aqui vendo coroas, e... tua coroa pode ser de orquídeas?
JUVENTINO: Pode. Por que não?
CUNHADO: Mas é puxado!
JUVENTINO: Quanto?
CUNHADO: Oitocentos.
JUVENTINO: Ladrões! Vamos fazer o seguinte; orquídea é uma flor besta, sofisticada. Arranja uma coroa mais em conta.
CUNHADO: Qual é a dedicatória?
JUVENTINO: Põe assim: ‘À Ismênia, saudade eterna do seu Juventino”. (para os presentes) Como é possível morrer de pneumonia? Se fosse câncer, vá lá. Mas pneumonia!
(Nesse momento todos os olhos se voltam para a porta. Entra uma coroa (de orquídeas) monumental)
JUVENTINO (se aproxima e lê a meia voz): “À inesquecível Ismênia, com todo o amor, de Otávio”. Otávio? Quem é Otávio? Vocês conhecem algum Otávio? (volta-se para a coroa) Mas como é possível? Que negócio é esse? (resmungando) “Todo amor” por que? (se aproxima da coroa) O cara que mandou isso gastou os tubos. E por que, meu deus, por que?
CUNHADO (para Juventino): Vamos fechar o caixão,você não vai beijá-la?
JUVENTINO (levanta. Vai até o escritório e volta. Aproxima-se do caixão puxa um punhal e crava na defunta aos berros) Cínica! Cínica! Cínica!
Tuesday, October 30, 2007
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